As palavras giram num turbilhão cruzado por sentidos esquecidos e expressões recentes. Nada faz sentido. Nem uma bússola serviria para navegar neste imenso oceano de línguas sobrepostas. Quero-me expressar, mas não consigo. Parece mesmo que até já perdi o controlo sobre a língua com quem me tornei gente, que me deu as armas para enfrentar os mais variados desafios. Sinto-me confusa e certas vezes temo roçar a demência. Será só extrema análise dos acontecimentos? Ou será mesmo o perder de faculdades antes tidas como garantidas? Sempre pensei que a minha língua nunca me fosse falhar, mas mesmo tentando buscar nela a melhor expressão dos meus pensamentos, fico de mãos vazias tentando tocar nas profundezas da minha memória, sem nunca sentir nada entre os dedos. Impotência. Ser incapaz de articular com a clareza necessária que evita o constrangimento de querer falar e não conseguir. Parecer aos olhos e ouvidos dos outros um ser que ainda está a aprender a interligar pensamentos, sem porém ainda não se conseguir fazer entender. Frustração. Tristeza. Auto-flagelação. Terá tudo isto um final?
Onde "Tudo" pode saber a nada, onde "Pouco" pode ser suficiente e onde "Nada" pode significar tudo!
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27 de maio de 2015
5 de novembro de 2010
Viagem
Final de tarde em Lisboa. Apanho o autocarro para casa. O Sol que ainda brilha aquece-me a alma, a música que oiço embala-me o espírito e, quando dou por mim, já estou no meu mundo, longe de tudo e de todos. Os meus olhos passeiam-se pela paisagem, mas nem reparo no que vejo. Estou demasiado enlevada pelos meus pensamentos para me preocupar com o que quer que seja. Como gostaria de continuar assim, sentada no banco, a olhar pela janela. Desejo não ter de carregar no Stop, não ter de descer na minha paragem, não ter de me despedir do meu mundo. Quero que o autocarro nunca pare, que a viagem continue, que os pensamentos fiquem. É só isso que preciso.
13 de maio de 2010
Paragem de autocarro
Final de tarde, início de regresso a casa. O painel marca 12 minutos para o 22, mas estes painéis nunca são de fiar. Sento-me no banco e aprecio a Avenida. Há pouco trânsito e poucas pessoas na rua. O sol, já enfraquecido, lança os seus ténues raios contra a cidade. Tudo parece calmo... Somente este vento frio que apareceu me faz sentir desconfortável. Enquanto estou à espera, este texto ganha vida na minha mente. Já me habituei à maneira como as palavras me invadem o pensamento, vindas do nada, e criam um turbilhão de emoções.
O autocarro chega. O painel marca 3 minutos. Eu bem vos disse que eles não são de fiar.
24 de março de 2010
Evasão
Todos os dias passo pelo Aeroporto de Lisboa. Todos os dias vejo aviões à espera de descolar. Todos os dias me cruzo com passageiros, hospedeiras e pilotos. Todos os dias aprecio estas visões, mas ao contrário do que seria esperado, a minha alma não é acariciada por desejos de evasão. Ela não grita a sete ventos que quer partir para outro lugar, não se demonstra com sede de aventuras. Parece-me que estou demasiado ligada a esta cidade, a esta vida e às minhas pessoas, para lhes querer virar as costas. Sei que um dia não será como todos os outros. Sei que um dia, em vez de passar com indiferença pelo aeroporto, serei eu a sair do autocarro e a dirigir-me para a porta de embarque. Os meus sonhos de viagem estão guardados naquela caixinha que me faz viver e, eventualmente, irei mostrar-lhes a luz do dia, mas por enquanto a minha alma não grita o suficiente para ser levada a sério, limita-se a sussurrar uma cantiga de fantasia.
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