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22 de janeiro de 2016

Contemplação

Creio que qualquer pessoa que escreva por gosto ou profissão sabe que é necessário observar o mundo que nos rodeia, não só para termos ideias, como para percebermos o funcionamento deste universo complexo de relações e interacções, de inícios e fins, de partidas e chegadas.
A contemplação é necessária não só à nossa mente criativa, mas também ao nosso espírito. De que outro modo estaríamos em sintonia com a natureza deslumbrante do nosso planeta? Olhar à nossa volta e observar as árvores e os pássaros, enquanto sentimos o toque suave do sol no rosto, pode ser o necessário para dar calma à nossa alma e descanso aos nossos pensamentos.

16 de junho de 2015

Cheira a verde

Gosto da maneira como o cérebro funciona ao nível das memórias. Por vezes basta um refrão de uma música para nos lembrarmos de um exacto momento da nossa vida. Por vezes uma fotografia transporta-nos até emoções vividas. Por vezes um mero odor coloca-nos num lugar há muito esquecido. E esse lugar nem é necessariamente físico, pode ser simplesmente emocional. 
Para mim, o simples odor de relva acabada de cortar, aquilo a que muitas vezes me refiro como "Cheira a verde", transporta-me à minha infância e àquele lugar no meu coração onde ainda não existiam preocupações. 

26 de março de 2015

Cativeiro

Cresci como um animal em liberdade. Assim que podia saía de casa e ia para o meio das árvores, pisava a relva descalça, via o meu avô regar a horta e o meu pai a tratar dos animais. Nunca era hábito ficar muito tempo dentro de quatro paredes, até porque sendo criança e tendo uma terreno à minha disposição e dois cães para brincar era o paraíso. Era uma alegria vestir a roupa já gasta e suja para poder brincar à vontade com os joelhos na terra e as mãos nas ervas. Criar casas na seara com a minha irmã e só voltar para dentro do conforto do lar quando já os últimos raios de sol se tinham ido embora e nos deixado no lusco-fusco. Mas a vida decidiu mudar e o animal livre foi colocado em cativeiro. As horas passadas dentro de quatro paredes tornaram-se maiores e mais frequentes. Sabia onde encontrar árvores para me refugiar, mas não era o mesmo. O mundo seguro que conhecia desde criança estava inacessível, o espaço onde me podia perder e saber sempre o caminho para casa já não estava a uma simples porta de distância. O distanciamento foi crescendo, o cativeiro começou a apoderar-se e entretanto apareceu a cidade maior. Para minha surpresa consegui descobrir recantos naturais onde me sentia bem. Comecei a visitá-los, a familiarizar-me com eles, até que o tempo se tornou escasso, as responsabilidades se sobrepuseram e as visitas se tornaram cada vez menos frequentes. Agora que tenho pedaços de natureza à distância de um olhar, já não sei como me comportar, a minha alma ainda conhece a sensação de liberdade, mas o meu corpo já há muito se moldou ao cativeiro. Tenho de me ensinar de novo a explorar. 

24 de fevereiro de 2011

Jardim

Aviões pairam sobre mim. Não os consigo ver por entre os ramos das árvores, mas consigo ouvi-los, assim como oiço a corrida veloz da água que passa ao meu lado. Verde. Tudo aqui é tão verde como na terra que deixei para trás. Tenho o meu pedaço de paraíso aqui neste lugar. Os pássaros dizem-me olá, as folhas sucumbem à fraqueza do caule e os patos discorrem sobre assuntos misteriosos. Podes não fazer parte do meu Alentejo, mas fazes parte do meu coração. És o meu porto seguro em dias de tempestade e a minha inspiração em dias vazios. Gosto de me passear pelos teus labirintos, de reparar nos teus pormenores, de me perder nos teus encantos. Foste dos primeiros lugares neste sítio outrora desconhecido a receber a distinção de "lugar especial". E assim continuas, especial como sempre.

16 de fevereiro de 2011

Chora

Não tenhas medo de chorar,
não me vais deixar triste.
Chora, que eu preciso do teu choro.
Deixa o teu sorriso para amanhã
e vem lavar-me a alma hoje.
Quero as tuas lágrimas na minha pele,
na minha face, na minha roupa.
Chora, que eu já não tenho forças para o fazer.
Fá-lo por mim,
que eu colo as minhas mágoas às tuas lágrimas,
para que sejam levadas na enxurrada,
apagando qualquer sinal da sua existência.


Estás a chorar,
obrigada céu.

1 de fevereiro de 2011

Meu pedaço

Por vezes fujo de ti, mas não é por mal. Por vezes ficamos demasiado tempo separados e as saudades crescem exponencialmente, mas eu nunca me esqueço de ti, nem conseguiria se o quisesse. És parte de mim, és a minha essência e o meu amor. O meu grande amor. Foste tu que me viste crescer, que me viste cair e levantar, que me ensinaste a apreciar a Natureza. És tu que me acolhes quando sinto as forças a esgotarem-se, que me ajudas a pôr os pensamentos em ordem, que me mostras beleza mesmo num dia cinzento. É incrível como depois de tantos anos ainda me consegues deixar sem fôlego. Ainda tens a capacidade de me deixar extasiada e de me fazer sentir a levitar.

Hoje abracei-te, como já não o fazia há muito tempo, e tu sorriste, mostraste-me todo o teu esplendor e relembraste-me de que, por muito que eu fuja, voltarei sempre a ti, nem que seja para um só abraço, porque és parte de mim, meu pedaço de Alentejo.

23 de janeiro de 2011

Serenidade

Chove.
Chove e as gotas fazem barulho na persiana.
O frio trespassa a janela e gela os ossos.
Serenidade.
É isso que esta chuva me traz.
Acalma os meus devaneios
e não pede nada em troca.
Limito-me a ouvi-la
e a contemplá-la.
Nada quero fazer,
nada devo esperar.
Nesta noite de inverno,
não me vou sufocar,
porque chove e nada mais acontece,
só chove.
Chove.

29 de março de 2010

Natureza

Tenho saudades de viver no campo, de olhar pela janela do meu quarto e ver de um lado o Cerro da Inês e, do outro, o Castelo; de esticar-me sobre a relva sempre que me apetecia;de brincar com o meu cão; de andar de tractor com o meu avô; de ajudar o meu pai a cuidar dos animais; de sentir o cheiro a terra molhada no Inverno e de subir às laranjeiras no Verão. Tenho saudades de tanta coisa daquele sítio (mas não daquela vida). Podem chamar-me miúda do campo ou gente do monte, pouco me interessa. O meu coração é selvagem como as flores que despontam livremente no verde que se perde de vista. E tenho orgulho nisso. Sinto-me ligada à Natureza todos os dias da minha vida. De certo não seria a mesma pessoa se não tivesse crescido onde cresci e como cresci. Todos nós devíamos passar a nossa infância junto da Natureza, só assim nos conseguimos tornar mais humanos.