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21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia #2

Mais um Dia Mundial da Poesia, mais um poema favorito.

Por Delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei

Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida».

Sophia de Mello Breyner Andersen

21 de junho de 2010

Quero a ignorância de antigamente

Estou cansada de tentar
e não conseguir.
De pensar,
mas não agir.
A história repete-se,
sempre com um final diferente,
com mais uma lição para dar.
Quantas mais me faltarão aprender?
Será sempre assim o meu viver?
Sei valorizar a Paz
Sem ter que guerras enfrentar.
Mas, então, porque pareço caminhar
Num campo minado,
Onde espreitam perigos de todo o lado?
Não quero ter de me preocupar
Com o chão que piso.
Quero correr livremente,
Quero a ignorância de antigamente,
Aquela que tantas vezes
foi por Pessoa referida
E que, infelizmente,
É sempre perdida.


"A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim."

Fernando Pessoa

17 de abril de 2010

Dor de pensar

Por vezes sinto-me como Fernando Pessoa se sentia...
“ (…) Não sei o que me falta…

Não sei o que quero,
Nem posso sonhá-lo (…)”.
Perco-me em pensamentos nos quais não me devia perder, pois são meras ilusões, meras suposições. Muitas vezes não levam a lado nenhum, simplesmente chamam outros pensamentos, acolhem-nos e multiplicam-se, sem fim à vista. Porque tenho de pensar tanto? Porque não posso simplesmente deixar acontecer? Pois, essa não é a minha natureza, não consigo deixar de raciocinar, de sair do ponto A para o C sem fazer uma paragem no B. E o mais frustrante nem é tanto o pensamento em si, mas a incapacidade de chegar a uma conclusão. Já por algumas vezes, em conversas mais ou menos sérias com amigas, admitimos de que podemos não ter a certeza do que desejamos, mas sabemos exactamente o que não queremos e, para mim, esta ideia é uma espécie de bóia de salvação. Agora, sempre que me sinto angustiada por não saber o que me faz falta ou o que quero, basta lembrar-me de que sei exactamente o que NÃO quero.

21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia


Porque não podia deixar passar em branco o Dia Mundial da Poesia aqui fica um dos meus poemas favoritos



Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.


Almeida Garrett