Cresci como um animal em liberdade. Assim que podia saía de casa e ia para o meio das árvores, pisava a relva descalça, via o meu avô regar a horta e o meu pai a tratar dos animais. Nunca era hábito ficar muito tempo dentro de quatro paredes, até porque sendo criança e tendo uma terreno à minha disposição e dois cães para brincar era o paraíso. Era uma alegria vestir a roupa já gasta e suja para poder brincar à vontade com os joelhos na terra e as mãos nas ervas. Criar casas na seara com a minha irmã e só voltar para dentro do conforto do lar quando já os últimos raios de sol se tinham ido embora e nos deixado no lusco-fusco. Mas a vida decidiu mudar e o animal livre foi colocado em cativeiro. As horas passadas dentro de quatro paredes tornaram-se maiores e mais frequentes. Sabia onde encontrar árvores para me refugiar, mas não era o mesmo. O mundo seguro que conhecia desde criança estava inacessível, o espaço onde me podia perder e saber sempre o caminho para casa já não estava a uma simples porta de distância. O distanciamento foi crescendo, o cativeiro começou a apoderar-se e entretanto apareceu a cidade maior. Para minha surpresa consegui descobrir recantos naturais onde me sentia bem. Comecei a visitá-los, a familiarizar-me com eles, até que o tempo se tornou escasso, as responsabilidades se sobrepuseram e as visitas se tornaram cada vez menos frequentes. Agora que tenho pedaços de natureza à distância de um olhar, já não sei como me comportar, a minha alma ainda conhece a sensação de liberdade, mas o meu corpo já há muito se moldou ao cativeiro. Tenho de me ensinar de novo a explorar.
Onde "Tudo" pode saber a nada, onde "Pouco" pode ser suficiente e onde "Nada" pode significar tudo!
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26 de março de 2015
4 de dezembro de 2014
Retrospectiva
Provavelmente quando olhamos para trás vemos coisas de que nos arrependemos, de que nos orgulhamos, que nos fazem rir e que nos fazem chorar. Olhamos para trás e analisamos, pois o ser humano tem essa capacidade racional insistente de pensar no passado, principalmente nós portugueses que desde pequenos somos introduzidos à saudade, esse estado de alma que tantos estrangeiros acham difícil de traduzir e que por vezes nos mantém presos a um passado que não regressará mais e que por isso perpetua a nossa relação próxima e íntima com a saudade.
Podemos olhar o passado de vários ângulos e com várias abordagens, como a saudosista acima mencionada; a pessimista, de que o futuro de certo será pior; a optimista, de que já fizemos tanto e que faremos ainda mais; ou a minha preferida, a interrogativa, da qual surgem perguntas «Porque é que fiz aquilo?», «Onde será que errei?», «Como é que vim aqui parar?». Esta abordagem dá-nos a capacidade de evoluir, de verificar o quanto crescemos e o quanto as nossas atitudes mudaram e porquê. Permite-nos ser um espectador activo em vez de passivo e agarrar as rédeas do nosso presente. Todos dizem que se aprende com os erros e todos estão certos, a melhor maneira de aprender é se tentarmos, mesmo que possa culminar em fracasso pelo menos já saberemos que será necessário um método diferente para aplicar à situação e isso dá-nos conhecimento e consciência, dá-nos ferramentas que poderemos utilizar no futuro e, portanto, quanto mais cedo tentarmos mais depressa teremos uma caixa cheia de ferramentas prontas a usar cada vez que houver um obstáculo no caminho. E vai haver, sempre houve e sempre haverá, agora a maneira de os ultrapassar depende do que as nossas tentativas nos ensinaram e da nossa capacidade de aprender através das nossas escolhas.
Como é que vim aqui parar? Acima de tudo com a vontade de poder afirmar que tentei e espero vir poder a dizer que consegui.
9 de outubro de 2014
Liberdade
É curioso como um lugar que acabámos de conhecer, que ainda não podemos dizer que nos conhece a nós, nos dá momentos que nos lembram de onde crescemos. O simples acto de olhar pela janela e ver o céu azul imenso que paira sobre os pinheiros verdes me faz lembrar que não foi numa cidade caótica, cheia de prédios altos e de carros a buzinar que me criei, apesar de ter sido esta a minha realidade nos últimos 6 anos; foi num sítio assim, semelhante a este, com céu a perder de vista, o cheiro a relva acabada de cortar, os pássaros a cantarem nos arbustos, o passo vagaroso das pessoas, o ritmo da natureza. Foi num sítio assim que comecei a viver e seguramente que é num sítio assim que gostaria de continuar a viver, a ser feliz. Porque a felicidade também depende muito do sentimento de liberdade e onde existem os prédios altos a tocar o céu a nossa liberdade fica restringida e a nossa felicidade só tem o tamanho da quantidade de céu que conseguimos vislumbrar por entre fendas da densa malha urbana.
15 de dezembro de 2010
Fuga
Desfaço os caracóis do cabelo
e visto uma roupa que não é minha.
Hoje não quero ser eu,
quero ser outro alguém.
Preciso de ver o outro lado do espelho,
vislumbrar o mundo com outros olhos.
Hoje dispo-me de convenções
e ignoro a razão.
Quero perder o meu chão,
sentir-me vulnerável e
anotar as pessoas que se aproveitarem.
Essas serão ignoradas e
nunca merecedoras da palavra "amizade".
Quero fazer um balanço à vida
e guardar o estritamente necessário.
Por isso, hoje, não posso ser eu,
sou demasiado parcial
para me desfazer do supérfluo.
Hoje quero ser o que nunca fui,
para fugir ao que sempre serei.
e visto uma roupa que não é minha.
Hoje não quero ser eu,
quero ser outro alguém.
Preciso de ver o outro lado do espelho,
vislumbrar o mundo com outros olhos.
Hoje dispo-me de convenções
e ignoro a razão.
Quero perder o meu chão,
sentir-me vulnerável e
anotar as pessoas que se aproveitarem.
Essas serão ignoradas e
nunca merecedoras da palavra "amizade".
Quero fazer um balanço à vida
e guardar o estritamente necessário.
Por isso, hoje, não posso ser eu,
sou demasiado parcial
para me desfazer do supérfluo.
Hoje quero ser o que nunca fui,
para fugir ao que sempre serei.
1 de julho de 2010
"Esta é a nossa rua"
Assim se chama o documentário que vi hoje na RTP1, sobre a diversidade cultural que existe na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Se tivesse visto este documentário o ano passado, poderia estar incluída no pronome possessivo que figura no título, mas já não pertenço a este mundo. Não posso dizer que conheço aquela Avenida como a palma das minhas mãos, mas foram inúmeras as vezes em que os meus pés pisaram a sua calçada, em que os meus olhos desfilaram sobre as suas fachadas, em que os meus ouvidos foram embalados pelos seus sons. Por vezes, quando sinto vontade de me refugiar, é nesta Avenida que penso, é para lá que o meu espírito voa, com vontade de não voltar. Não sei ao certo porque me fascina esta artéria de Lisboa , talvez porque foi o primeiro sítio que me fez sonhar com a vida académica, que me acolheu de braços abertos e que testemunhou os meus sofrimentos e alegrias do início do meu sonho de independência. Sinto falta de ter esta Avenida sempre ao meu lado, de ser embalada por ela, de despertar com ela, de viver com ela. Por ventura ainda sou capaz de voltar a ter esta Avenida como morada; por enquanto, visito-a quando posso, demonstrando-lhe que nunca me esquecerei dela.
30 de março de 2010
Escrita
No outro dia, dei por mim a vaguear entre textos que escrevi há mais de dois anos. É engraçado como me esqueço do que escrevo, mas é grave esquecer-me de que senti aquilo que ficou gravado em palavras. As mudanças às vezes impressionam-me. Elas ensinam-me que necessitam de pouco tempo para se fazer notar e que nem sempre são boas. Ao olhar para o que escrevi, vejo que mudei, que o que sinto hoje não é igual ao que senti antes, que o que me irá assombrar no futuro não são os mesmos fantasmas do passado, mas também vejo que a minha escrita necessita de uma motivação que nem todas as pessoas me conseguem proporcionar.
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